segunda-feira, 12 de março de 2012

A Inversão de Valores e a Importância da Engenharia

Vivemos em uma sociedade na qual são valorizados predominantemente as aparências  e  o  glamour.  Modelos,  cantores,  atores  e  atletas  se  sobrepõem, com  seus  valores,  a  outros  valores  essenciais  ao  progresso  da  condição humana  e  à  melhoria  da  qualidade  de  vida.  Mas  o  problema  não  é  apenas brasileiro; é fenômeno universal, com algumas raras exceções. Mas não se pode esquecer que basicamente tudo o que utilizamos em nosso dia  a  dia  -  meios  de  transporte,  tais  como  rodovias,  ferrovias,  aeroportos, edifícios  residenciais,  espaços  para  abrigar  hospitais,  escolas,  centros culturais  etc.,  tudo  isso  são  projetados  pela  inteligência  de  arquitetos  e engenheiros.  A  Engenharia,  em  meu  entendimento,  é  a  maior  responsável pelo  progresso  da  humanidade  em  todos  os  campos  do  conhecimento humano. O  futuro  não  depende  das  celebridades,  muitas  das  quais  alegram  e satisfazem  o  nosso  dia  a  dia,  mas,  sim,  dos  cientistas,  pesquisadores  em todas  as  áreas,  tecnólogos  e  engenheiros  que  continuam  a  construir  as condições para um futuro melhor. Na  mesma  semana  em  que  os  jornais,  revistas  e  TVs  gastaram  páginas  e horas para mostrar e comentar as roupas e joias usadas na entrega do Oscar, foi dado o prêmio Russ Prize - equivalente ao Nobel de Engenharia - para os  engenheiros  Earl  Bakken  e  Wilson  Greatbatch.  Contudo,  nenhum comentário  apareceu  na  mídia  a  respeito  disso.  E  essas  personalidades, foram  os  inventores  do  marca-passo.  Graças  a  elas,  atualmente  mais  de  4 milhões  de  pessoas  estão  vivas.  São  instalados  mais  de  400  mil  marca-passos por ano no mundo. Na  inauguração  das  grandes  obras  de  Engenharia  costumam  aparecer  as autoridades eventualmente de plantão. Mas os nomes dos engenheiros e dos projetistas  que  as  projetaram  e  construíram,  invariavelmente  são negligenciados e esquecidos. Quando muito, são divulgados nos nomes das construtoras. Nos folhetos de venda dos imóveis e coquetéis de lançamentos aparecem os paisagistas, decoradores de interiores e imobiliárias. Mas não aparecem os nomes  das  empresas  de  Engenharia  envolvidas  nos  projetos  de  estruturas, fundações  e  instalações.  A  Engenharia  é  encarada  quase  como  um  mal necessário.
Só  somos  lembrados  quando  ocorrem  catástrofes  e  acidentes  em  obras. Nestas  horas,  todos  querem  identificar  os  engenheiros  responsáveis.  É nossa,  a  responsabilidade  de  mudar  este  quadro,  valorizando  nossa profissão,  fazendo  com  que  as  conquistas  da  Engenharia  sejam reconhecidas  e  deixem  de  ficar  em  terceiro  plano.  Esta  falta  de reconhecimento e valorização tem consequências diretas nas remunerações dos serviços de Engenharia. As  imobiliárias, que não  tem  nenhuma  responsabilidade pelas  edificações, nem  pelo  seu  desenvolvimento,  recebem  6%  do  valor  geral  de  vendas (VGV)  enquanto  todos  os  projetos  de  engenharia  da  obra  somados representam no máximo 2% do VGV. Pior: ninguém discute os gastos com corretagem. Em compensação discutem os custos de projeto e das soluções de Engenharia. Trata-se de uma total e absoluta Inversão de Valores! Com o crescimento da economia no Brasil, cada vez mais a nossa profissão será  necessária.  Com  mais  de  40  anos  de  atividade,  passando  por  vários planos econômicos, posso afirmar que escolhi a profissão ideal. Precisamos de mais engenheiros e tecnólogos urgentemente. A valorização da profissão fará  com  que  mais  estudantes  se  interessem  em  entrar  num  dos  campos mais desafiadores e gratificantes das atividades humanas: a Engenharia!
 
*Milton Golombek é presidente da Associação Brasileira de Empresas de Projetos e Consultoria em Engenharia Geotécnica (ABEG)

Nenhum comentário:

Postar um comentário